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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ficha de espécies - O Pisco-de-peito-ruivo

O Pisco-de-peito-ruivo é um pequeno e atraente passeriforme, bem conhecido pela sua mancha alaranjada que lhe ornamenta o peito. É uma das aves portuguesas que mais alegra os dias de Inverno, com o seu canto melodioso e persistente.


IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula é um pequeno Passeriforme da família Turdidae. Tem cerca de 14 cm de comprimento (mais ou menos como um Pardal), e pesa entre 15 e 20 gramas. É uma das aves portuguesas mais fáceis de identificar. Geralmente observa-se saltitando pelo chão (por vezes imobilizando-se com uma pequena "vénia"), ou poisado nos ramos baixos de uma árvore, adoptando sempre uma posição muito vertical com o corpo. Tem no peito uma grande mancha côr-de-laranja bem demarcada, que se estende até à face. As restantes partes inferiores são de um branco sujo, e por cima é de um castanho uniforme. As aves jovens são malhadas de castanho por baixo, e não apresentam tons alaranjados. É impossível distinguir os machos das fêmeas com base na morfologia externa, embora os primeiros sejam, em média, ligeiramente mais corpulentos. As suas vocalizações são consideravelmente variadas. O canto é muito melodioso, variado, e por vezes um pouco melancólico. É muito vocal, e pode fazer-se ouvir durante quase todo o ano. Para além do canto propriamente dito, emite chamamentos que podem soar como tic-tic-tic-tic, ou szziiiii.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

É uma ave tipicamente europeia, embora também ocorra no Médio Oriente e Norte de África. Em Portugal a sua distribuição é variável, conforme a altura do ano. No Outono/Inverno encontra-se por todo o lado, das montanhas às cidades, do norte ao sul, e do interior ao litoral. Na Primavera/Verão tem uma distribuição alargada a norte do Tejo, mas a sul é escasso, concentrando-se nas regiões mais húmidas e próximas do litoral. Encontra-se, por exemplo, nas Serras da Arrábida, Grândola e Monchique. Na Madeira e na maioria das ilhas do Açores está presente todo o ano. É uma ave muito abundante (uma das mais abundantes no país), sobretudo durante a época fria.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Comum como é, por toda a Europa, esta ave não suscita quaisquer preocupações no que diz respeito à sua conservação, tanto a nível nacional como internacional. Isto apesar de ser fácil de apanhar em armadilhas ("ratoeiras"), e portanto tradicionalmente bastante perseguido no campo. Esta perseguição ainda hoje se verifica, apesar do Pisco-de-peito-ruivo ser, como quase todos os pequenos Passeriformes, protegido por lei.

HABITAT

Tanto de Verão como de Inverno o Pisco-de-peito-ruivo surge numa enorme variedade de habitats, desde que tenham algum grau de cobertura arbórea ou apenas arbustiva. Encontra-se desde as matas agrestes no alto das serras do norte até ao centro das grandes cidades. No norte e centro tanto pode ser abundante em matas de folhosas como em coníferas. No entanto, nas áreas de invernada do sul é bastante mais numeroso em áreas de montado do que em pinhais. Nesta época também é extraordinariamente abundante em áreas de matagal mediterrânico, como os da Serra da Arrábida, e em olivais. Em regiões muito abertas, à partida inóspitas para a espécie, coloniza facilmente pequenas sebes ou qualquer vegetação que proporcione um abrigo mínimo. Durante a reprodução prefere zonas sombrias e com alguma humidade, como bosques fechados, jardins frondosos e matas ribeirinhas.

ALIMENTAÇÃO

Na Primavera/Verão o Pisco é quase exclusivamente insectívoro. Na verdade esta designação genérica significa que se alimenta não só de insectos, mas também de pequenas aranhas e outros invertebrados. Durante o Outono e Inverno, particularmente no sul da Europa, incluindo Portugal, torna-se parcialmente ou totalmente frugívoro. Nesta altura as suas fezes são negras ou côr de vinho, das cascas e polpas dos pequenos frutos ou bagas que ingeriu. Alimenta-se então das bagas de muitas espécies dos matagais mediterrânicos, como zambujeiros (ou oliveiras), aroeiras, medronheiros, madressilvas e folhados, entre outros. Nas áreas de montados ingere frequentemente partes de bolotas que foram parcialmente despedaçadas por outros animais. No norte da Europa também aceita alimentos sintéticos que lhe são oferecidos pelos amigos dos pássaros. Em períodos particularmente difíceis podem mesmo aventurar-se a apanhar minúsculos peixes em pequenos cursos de água.

REPRODUÇÃO

A nidificação desta espécie quase não foi estudada em detalhe em Portugal, havendo ainda muito por descobrir. Sabemos que a maioria cria de Abril a Julho, mas ocasionalmente podem ser observados ninhos activos no Outono ou mesmo em pleno Inverno. Por exemplo, o ornitólogo inglês William Tait observou uma ave jovem recentemente saída do ninho em 4 de Janeiro de 1884, nas imediações do Porto. Esta espécie é monogâmica e territorial. Os ninhos podem localizar-se em buracos no solo, taludes, muros, por entre raízes de árvores velhas e no interior de casas abandonadas. O ninho é volumoso, com uma base feita de folhas secas, e uma "tijela" central de musgo, ervas e pequenas folhas, revestida de material mais fino, incluindo cabelos, fibras vegetais e ocasionalmente penas. A postura geralmente é constituída por 4 a 6 ovos brancos ou ligeiramente azulados, com um número variável de pequenas manchas avermelhadas. A incubação dura 13 a 14 dias, e as crias permanecem no ninho em média cerca de 13 dias antes de o abandonarem.

MOVIMENTOS

Os Piscos-de-peito-ruivo que nidificam em Portugal são provavelmente quase todos sedentários. Por outro lado, os que aqui vêm apenas para passar o Inverno, são migradores bastante notáveis. Muitos são originários da Escandinávia, ou mesmo da Rússia. Muitos outros provêm da Europa Central e Ocidental. As primeiras aves migradoras geralmente surgem na última semana de Setembro e a espécie torna-se abundante logo desde o princípio de Outubro. Em Março dão-se a maior parte das partidas de volta às áreas de reprodução, embora algumas aves possam ainda permanecer nos territórios de invernada até ao princípio de Abril. Muitos dos Piscos invernantes voltam aos mesmos locais de invernada em Portugal de uns anos para os outros, conforme foi possível confirmar graças a estudos de anilhagem.

LOCAIS DE OBSERVAÇÃO

Pelo menos durante o Inverno, o Pisco-de-peito-ruivo pode observar-se em qualquer local, incluindo parques e jardins nas vilas e cidades.

CURIOSIDADES

Este é um dos poucos Passeriformes europeus em que as fêmeas cantam regularmente, durante o Inverno, com vocalizações muito semelhantes às dos machos. Os níveis de hormonas masculinas nas fêmeas são então muito elevados. Provavelmente graças a isto, tantos os machos como as fêmeas podem defender territórios nas áreas de invernada.

BIBLIOGRAFIA

Catry, P., R. Rebelo, M. Lecoq 1 A. Campos (1999). Diferenças marcadas na actividade vocal de piscos Erithacus rubecula invernantes em biótopos distintos. Resultados preliminares. Actas do II Congresso de Ornitologia da SPEA. SPEA, Lisboa.

Cuadrado, M. (1995). Site fidelity and territorial behaviour of some migratory passerine species overwintering in the Mediterranean area. Tese de Doutoramento, Universidade de Lund.

Lack, D. (1945). The life of the robin. Whiterby, London.

Rufino, R. (Coord.) (1989). Atlas das aves que nidificam em Portugal Continental. CEMPA. SNPRCN, Lisboa.

Schwabl, H. (1992). Winter and breeding territorial behaviour and levels of reproductive hormones of migratory European robins. Ornis Scandinavica 23: 271-276.

Snow, D.W. e C.M. Perrins (1998). The Birds of the Western Palearctic. Concise Edition. Oxford University Press, Oxford.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ficha de Espécies: Pepinos do mar – um legume ou um animal?

Apesar das suas semelhanças com os pepinos das nossas hortas, os pepinos do mar são animais marinhos aparentados com as estrelas-do-mar e com os ouriços-do-mar, possuindo um conjunto de características particularmente interessantes e inesperadas.

Os pepinos do mar podem dever o seu nome à semelhança que têm com esse legume das nossas hortas, mas na realidade são animais marinhos, parentes muito próximos das Estrelas-do-mar e dos ouriços-do-mar, apesar de a estes não se assemelharem muito, pelo menos superficialmente.

Constituem um grupo numeroso, com cerca de 1250 espécies, do filo Echinodermata – a classe Holothuroidea, pelo que também são conhecidas como Holotúrias. São uma classe antiga, cujos membros actuais resultam de 540 milhões de anos de evolução desde o seu aparecimento nos fundos oceânicos (Lambert, 1995).

As holotúrias podem ser encontradas desde a zona intertidal até aos fundos das maiores fossas oceânicas em todos os oceanos do mundo, alimentando-se essencialmente de matéria orgânica em suspensão ou depositada no substrato ou de pequenos animais que capturam com os pés ambulacrários.

Bem adaptadas ao seu ambiente, possuem corpos tubulares alongados, com a boca e o ânus em extremidades opostas. O corpo é essencialmente constituído por músculos e tecido conectivo, não apresentam esqueleto ósseo, mas possuem inúmeras placas calcárias que consoante a contracção dos músculos, dão maior ou menor consistência ao corpo. Apresentam texturas variadas desde rugosa a muito suave, e em cores cobrem todos os espectros existentes.
 Na grande maioria possuem os corpos cobertos de pequenos pés ambulacrários (apenas uma das 6 ordens que constituem esta classe não apresenta estas estruturas), que podem ter as mais diversas disposições na parede corporal. São animais de deslocação lenta, que recorrem tanto aos pés ambulacrários como ao movimento ondulatório do seu corpo, muito semelhante aos das lagartas, ou mesmo a movimentos natatórios.

São animais de crescimento lento que só atingem a maturidade entre os 5 e os 8 anos, podem, no entanto e consoante a espécie, atingir tamanhos consideráveis, variando o intervalo de tamanhos entre o 1 cm e os 5 m de comprimento.
O comportamento sedentário e o corpo mole da maioria das holotúrias coloca-as à mercê dos predadores, no entanto, elas desenvolveram substâncias químicas – toxinas, que os afastam, mas no arsenal defensivo das holotúrias estão também os tubos de Cuvier, uma estrutura filamentosa, extremamente adesiva e também de elevado grau tóxico, que são eviscerados quando as holotúrias são atacadas, molestadas ou simplesmente manuseadas. A evisceração é uma das suas mais particulares características, a outra é a sua capacidade de regenerarem os órgãos, vísceras e parte do sistema respiratório, que perdem com a evisceração.
Contudo, o que pode mais surpreender nesta classe dos equinodermes é o facto de algumas espécies fazerem parte da dieta alimentar de milhões de pessoas, nomeadamente no Japão, China e Coreia, desde há séculos, sendo considerado uma especialidade gastronómica utilizada nos mais variados pratos, mas são utilizados igualmente pela crença nas suas propriedades curativas e afrodisíacas.

Na verdade, cerca de 14 000 toneladas de holotúrias são descarregadas anualmente, a maioria das quais provenientes dos desembarques japoneses e coreanos de uma única espécie, que para além de pescada é igualmente criada em aquaculturas. As holotúrias constituem a base de uma indústria multi-milionária que processa a parede corporal destes animais e a comercializa.

Nem todas as espécies são comestíveis, e mesmo as que o são precisam de serem anteriormente preparadas.

As holotúrias podem ser consumidas em fresco (cru) ou em seco. Em seco, são conhecidas como Trepang (palavra de origem Malaia) ou Bêche-de-mer (uma adaptação francesa do nosso português bicho-do-mar), sendo considerado uma delícia gastronómica, utilizada em sopas e em pratos especiais. Depois de cozido, apresentam uma textura suave, cartilaginosa, quase transparente, absorvendo todos os sabores dos molhos e dos outros ingredientes.
Como se referiu, um dos motivos pelos quais os asiáticos consomem o Trepang é a crença nas suas propriedades curativas, as holotúrias são utilizadas medicinalmente pelos asiáticos, e em concreto pela medicina tradicional chinesa, no tratamento da artrite, de lesões dos tendões, ligamentos e articulações, em dores e inflamações musculares e no tratamento da hipertensão. Apenas nas últimas décadas do século passado, a medicina ocidental e os cientistas realizaram experiências no sentido de investigar a importância das holotúrias no tratamento da artrite e de outras doenças das articulações.
As holotúrias contêm as vitaminas A, C, algumas do complexo B, e alguns minerais, mas, e de facto, uma das suas mais-valias para os homens é o facto de serem uma fonte de mucopolissacáridos e de substâncias denominadas de GAGs – Glucosaminoglicanas, das quais se destaca o sulfato de condroitina, que é uma combinação de sulfato de glucosamina com açúcares.

A Glucosamina é uma forma de açúcar (amino-açucar) que se crê desempenhar um papel importante na formação e reparação de cartilagens. O sulfato de condroitina é parte de uma grande molécula proteica (proteoglicano) que dá elasticidade à cartilagem.

Estas substâncias têm sido extraídas de esqueletos externos de animais como a lagosta, o caranguejo ou o camarão, no caso da glucosamina e das cartilagens e traqueias de tubarões no caso do sulfato e já fazem parte de alguns suplementos alimentares e dietéticos.
Outra das mais valias das holotúrias são as suas toxinas, algumas espécies produzem toxinas de interesse farmacológico, e alguns compostos isolados até à data, exibem actividade anti-microbiana ou actuam como agentes anti-inflamatórios ou anti-coagulantes.
Os pescadores de algumas ilhas do Pacífico, por exemplo, utilizam as toxinas das holotúrias, algumas das quais inibidoras respiratórias para atrair os peixes e os polvos das rochas de forma a poderem ser mais facilmente capturados. Estes pescadores utilizam igualmente os tóxicos tubos de Cuvier como pensos rápidos em feridas que sangram.
Para além de serem importantes na nossa economia, as holotúrias assumem particular relevância em termos ecológicos, uma vez que são muito importantes na manutenção e melhoramento das condições dos ecossistemas onde se encontram. Como animais detrívoros em larga escala, são responsáveis pela reciclagem de cerca de 90% da biomassa dos fundos marinhos, além de que “arejam” o sedimento à semelhança do que as minhocas fazem com a terra.
Nota final:
Apesar de nenhuma espécie de holotúria constar na Lista Vermelha da IUCN, os exemplos de espécies ameaçadas a nível regional ou nacional devido à sobre-exploração dos stocks têm vindo a aumentar. Um destes exemplos de sobre-exploração vem do Arquipélago das Galápagos, em que a transferência do esforço de pesca do continente para as ilhas, em 1989, conduziu a uma redução dramática da população da espécie ali explorada – Stichopus fuscus até que em 1999 foi finalmente aplicado um plano de gestão das pescarias; outro destes exemplos é o da Baixa Califórnia cuja espécie explorada Isostichopus fuscus foi declarada, em 1994,em risco de extinção pelo Instituto Nacional de Ecologia do México.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ficha de espécies - O Lobo

O lobo, o maior de todos os canídeos selvagens, é um símbolo da natureza bravia que já deambulou por todo o Hemisfério Norte. Hoje,
Portugal é um dos poucos países da Europa Ocidental onde ainda existe.

DESCRIÇÃO GERAL

O lobo (Canis lupus) é um carnívoro de grande porte, sendo o maior canídeo selvagem que existe na actualidade. Embora faça lembrar, na aparência, um cão pastor alemão é na realidade mais magro, com o peito mais estreito, os membros mais compridos e as almofadas das patas mais desenvolvidas. A região anterior do corpo é bem desenvolvida e a região lombar é forte, arredondada e ligeiramente encurvada. As patas dianteiras são ligeiramente maiores do que as patas posteriores. A cauda é espessa e está quase sempre caída, entre os membros posteriores quando o animal se desloca. A cabeça é volumosa e alongada, de aspecto maciço e o focinho largo. As orelhas são triangulares, rígidas e relativamente curtas. Os olhos apresentam cor clara, castanho amarelada e inserem-se de forma oblíqua em relação ao focinho.
O lobo apresenta grandes variações de tamanho e de coloração ao longo da sua vasta área de distribuição geográfica. Na Península Ibérica o peso médio dos machos ronda os 35 kg, havendo, no entanto, animais que por vezes ultrapassam os 40 kg. As fêmeas são um pouco mais leves com um peso médio próximo dos 30 kg. O comprimento dos machos varia entre 131 e 178 cm e nas fêmeas entre 132 e 165 cm. A altura ao garrote situa-se entre os 65 e os 80 cm. O lobo apresenta uma pelagem de Inverno bastante mais densa e longa que a pelagem de Verão. Na sub-espécie ibérica, a pelagem é de coloração geral acinzentada, com a zona dorsal castanho amarelada, mesclada de negro, particularmente sobre o dorso. A zona ventral é clara, de tom, em geral, branco amarelado. O branco da garganta estende-se para as faces. A cauda é acinzentada com a ponta negra e tem ainda uma pequena mancha dorsal negra no seu terço superior. Os membros dianteiros apresentam, na parte da frente, uma faixa longitudinal negra. A abundância de tons avermelhados e/ou amarelados é uma das principais diferenças entre esta e as outras subespécies. Os lobos parecem depender sobretudo do olfacto e da audição, mas têm também uma visão relativamente boa. A longevidade potencial é de 16/17 anos, embora um lobo com 10 anos seja já considerado um animal velho.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

O lobo habitava originalmente quase toda a região Holárctica, acima dos 20º de Latitude Norte. Assim, todos os habitats existentes no Hemisfério Norte, à excepção das florestas tropicais e dos desertos áridos já foram habitados por este carnívoro, o que revela a sua grande capacidade de adaptação. No entanto, a área de distribuição deste predador encontra-se, actualmente, bastante reduzida e fragmentada, como consequência da destruição do seu habitat, da redução do número de ungulados selvagens e da perseguição sistemática que lhe tem sido movida pelo Homem. No entanto, ao longo da última década, tem-se assistido a uma recuperação evidente desta espécie em grande parte da sua área de distribuição europeia. Esta expansão das populações de lobo parece estar associada à protecção legal e ao aumento progressivo das populações de ungulados selvagens, sobretudo de corço e de javali, possivelmente resultante da diminuição da pressão cinegética (ainda que nalguns casos o incremento dos ungulados resulte precisamente de opções de gestão cinegética) e do êxodo rural que se tem verificado nas últimas décadas.

A população de lobo em Portugal distribui-se, actualmente, por uma área de aproximadamente 20 000 km2, sendo constituída por um número de animais que varia entre cerca de 300 animais no início da Primavera (antes da criação) e cerca de 450 animais em meados de Outono. O número de alcateias deverá variar entre 45 a 50 no núcleo populacional situado a norte do rio Douro, não devendo ultrapassar as 10 a sul do mesmo. A população poprtuguesa, principalmente o núcleo situado a norte do rio Douro encontra-se em continuidade com a população espanhola que varia entre os 1500 e os 2000 indivíduos. O núcleo situado a sul do Douro poderá estar isolado da restante população ibérica estando, deste modo, a sua conservação bastante ameaçada a médio prazo.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Canis lupus signatus (Cabrera 1907), a subespécie existente na Península Ibérica, possui em Portugal o estatuto de EM PERIGO e é abrangida por legislação nacional específica (actualmente em revisão), Lei nº90/88, de 13 de Agosto, Decreto de Lei nº130/90, de 27 de Abril, que lhe confere o estatuto de espécie protegida. Em termos Europeus, a conservação da espécie é requerida ao abrigo do artigo 2.3 da Directiva 92/43/CEE (Directiva Habitats), constando como espécie prioritária nos anexos II e IV. Os habitats do lobo estão parcialmente listados no anexo I dessa directiva. Esta espécie é também abrangida pelas convenções internacionais de Berna (Anexo II), de CITES (Anexo II-C2) e da Biodiversidade, onde consta como espécie elegível.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

Entendendo-se a designação de alcateia como um grupo familiar de lobos constituído por 2 animais reprodutores, um ou mais adultos ou subadultos e as crias do ano, pode dizer-se que é essa a unidade social dominante numa população de lobos. A natureza social desta espécie pode ser associada à tendência do lobo para caçar sobretudo animais muito maiores que ele próprio. O tamanho da alcateia varia bastante ao longo de toda a área de distribuição da espécie e são vários os factores que condicionam os seus limites . Em Portugal o número de animais em cada alcateia parece variar entre 3 a 5 indivíduos no fim do Inverno e 7 a 10 animais no Verão, com o nascimento dos lobachos.

ALIMENTAÇÃO
O lobo apresenta uma comportamento alimentar flexível que lhe permite ocupar áreas muito heterógeneas, no que respeita à disponibilidade e acessibilidade dos vários tipos potenciais de presas. No entanto, o regime alimentar deste carnívoro baseia-se no consumo de mamíferos de médio e grande porte, sobretudo ungulados. Em Portugal, as variações existentes nos hábitos alimentares do lobo parecem resultar da existência/abundância de presas selvagens e dos diferentes sistemas de pastoreio utilizados em cada região. No nosso país as principais presas selvagens do lobo são o javali, o corço e o veado e as presas domésticas mais comuns são a ovelha, a cabra, o cavalo e a vaca. Ocasionalmente também mata e come cães e alimenta-se de cadáveres que encontra no campo ou em locais próximos das povoações, onde são depositados animais domésticos mortos.

REPRODUÇÃO

Os lobos atingem a maturidade sexual com cerca de 2 anos de idade. O acasalamento verifica-se em Fevereiro- Março e após cerca de 2 meses de gestação têm lugar os nascimentos (Abril- Maio). As crias, 4 a 6 por ninhada, nascem com os olhos fechados e inicialmente têm necessidade constante dos cuidados maternais. Em geral, todos os indivíduos da alcateia participam na criação dos lobachos estando encarregues de levar comida para a fêmea reprodutora e para as crias. À medida que o Verão avança, a loba progenitora vai passando cada vez menos tempo no local de criação. A época de reprodução chega ao fim por volta de finais de Outubro, quando os lobachos, que já apresentam quase o tamanho adulto, abandonam o local de criação e começam a acompanhar o resto da alcateia nas suas deslocações, iniciando-se no processo de aprendizagem da caça.

UTILIZAÇÃO DO ESPAÇO E DO TEMPO

O tamanho da área que cada alcateia utiliza durante o ano nas suas deslocações normais varia bastante ao longo da área de distribuição mundial do lobo. Existem alcateias com áreas vitais com menos de 100 km2 e alcateias com áreas vitais da ordem dos 2500 km2. Vários factores interactuam na determinação da dimensão e configuração das áreas vitais de lobo, entre os quais a disponibilidade de recursos alimentares, de refúgio e o grau de perturbação humana. Em Portugal, as áreas vitais parecem variar entre os 100 e os 300 km2, situando-se entre as mais pequenas descritas para o lobo. A área vital não é utilizada de forma homogénea, já que no seu interior existem determinadas zonas, designadas habitualmente como centros de actividade, que são utilizadas com muito maior frequência. Entre Maio e Outubro os movimentos de toda a alcateia estão dependentes do local onde se encontram as crias. A partir de Novembro toda a alcateia inicia um período de movimentos mais amplos, visitando as zonas mais periféricas da sua área vital, possivelmente para marcar e defender o seu território.
Os lobos durante um período de 24 horas efectuam trajectos com cerca de 20 a 40 km à procura de presas que possam abater com sucesso. A sua velocidade máxima em corrida pode atingir os 55-70 km/h e podem manter, para grandes distâncias, uma velocidade média de 8 km/h. Estas deslocações efectuam-se, em geral, durante a noite, período durante o qual os lobos são mais activos.

INDÍCIOS DE PRESENÇA
A observação de lobos no meio natural, devido ao seu carácter esquivo e aos seus hábitos nocturnos, reduz-se geralmente a um golpe de sorte. Durante o dia resta aprender a distinguir os indícios que denunciam a sua passagem. Os dejectos são de cor variável, exibindo quando frescos tons escuros assim como um odor muito característico. Medem cerca de 20 a 30 cm de comprimento e 2,5 a 3,5 cm de largura máxima. São habitualmente encontrados no solo ou sobre pequenos arbustos ao longo de caminhos ou encruzilhadas, constituindo marcas territoriais. Podem ser constituídos por pêlos, fragmentos de ossos e por restos de matéria orgânica não digerida. As pegadas, dada a sua semelhança com as de cão, são praticamente impossíveis de identificar com segurança; no entanto, ao contrário dos cães, os lobos quando se deslocam, deixam um trilho bastante rectilíneo. Quando um lobo ataca um animal, deixa um conjunto de vestígios que por vezes permitem afirmar que o predador que matou aquela presa é um lobo, tais como o esmagamento da traqueia da presa, o tipo de arrastamento que se observa depois da presa morta, e o modo como determinadas partes da presa são consumidas. A concentração de todos estes vestígios pode-nos indicar um bom local para estar ao amanhecer e, pacientemente, tentar observar estes animais.

GESTÃO E CONSERVAÇÃO DO LOBO EM PORTUGAL

Nos países do sul da Europa, entre os quais Portugal, onde a presença do Homem se faz sentir desde há milhares de anos, a existência de medidas minimizadoras dos potenciais conflitos que podem surgir entre o lobo e as populações locais é fundamental para a conservação desta espécie. Para além das medidas de prevenção dos ataques de lobo aos animais domésticos é crucial a existência de um sistema eficaz de pagamento de compensações financeiras aos proprietários de presas domésticas de lobo alvo de prejuízos comprovados. Com a publicação da lei nº 90/88 o estado português assumiu a responsabilidade em indemnizar os cidadãos que venham a ser considerados como directamente afectados pela acção do lobo, sendo, actualmente, o I.C.N. (Instituto da Conservação da Natureza) a entidade responsável pela averiguação da causa e natureza dos prejuízos e pelo pagamento das respectivas indemnizações sempre que se confirme ser o lobo o seu causador.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ficha do Sapo-parteiro-ibérico

Limitado ao Sudoeste da Península Ibérica, o sapo-parteiro-ibérico é um endemismo peculiar: os machos transportam os ovos às costas e embora esta espécie tenha posturas pequenas, asseguram a sobrevivência da maioria dos seus descendentes.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O sapo-parteiro-ibérico (Alytes cisternasii) é um anuro (anfíbio sem cauda) de pequenas dimensões, geralmente com menos de 4,5 cm de comprimento. Os olhos são proeminentes e laterais com pupila vertical e a íris é dourada com retículos negros. As glândulas paratóides - 2 glândulas ovóides situadas na parte posterior da cabeça - são pouco visíveis. Possuem dois tubérculos (calosidades) palmares nas patas dianteiras, característica que os distingue da outra espécie de sapo parteiro existente em Portugal. Tem membros curtos com 5 dedos nas patas posteriores e 4 nas anteriores. Nas costas a pele é ligeiramente verrugosa e tem cor parda com manchas mais escuras (castanhas, cinzentas ou esverdeadas). Apresentam pequenas verrugas alaranjadas na cabeça, dorso e membros. Ventralmente são muito claros.

O dimorfismo sexual não é muito acentuado mas em média, as fêmeas são maiores que os machos. Na altura da reprodução é possível ver à transparência os ovos no ventre das fêmeas.

Os girinos podem atingir 7 cm de comprimento total. Ao eclodirem medem cerca de 1 cm. Têm olhos pequenos e íris dourada pigmentada de preto. A membrana caudal apresenta pequenas manchas escuras e esbranquiçadas
.

Distribuição

É uma espécie que só existe no quadrante sudoeste da Península Ibérica. Em Portugal existe sobretudo a sul do rio Tejo.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Faz parte do Anexo II da Convenção de Berna. Em Portugal é considerada uma espécie não ameaçada (NT).

FACTORES DE AMEAÇA

Os principais factores de ameaça para este sapo são a destruição ou alteração das zonas húmidas e o acelerado desaparecimento do bosque mediterrânico.

HABITAT

Encontra-se geralmente em zonas de baixa e média altitude, sobretudo em solos arenosos. Prefere zonas abertas ou zonas com vegetação pouco densa como pinhais e montados.

ALIMENTAÇÃO

São predadores generalistas. Alimentam-se de uma grande variedade de invertebrados: insectos (principalmente formigas e escaravelhos), aracnídeos, miriápodes, gastrópodes e oligoquetas. Os girinos alimentam-se de vegetais e de invertebrados aquáticos.

INIMIGOS NATURAIS

São predados por cobras de água e rapinas nocturnas (mochos e corujas). Para atrair maior número de presas desta espécie, o mocho-de-orelhas (Otus scops) imita o chamamento dos machos.

REPRODUÇÃO

A época de reprodução começa com as chuvas do Outono. O macho atrai a fêmea através de um chamamento semelhante a um conjunto de assobios e abraça-a pelas costas (amplexo). Muitas vezes o macho continua a cantar durante o amplexo. Depois da fecundação, que tem lugar em terra, o macho enrola os cordões de ovos nas suas pernas, transportando-os durante todo o período de incubação que dura entre 20 e 28 dias. O mesmo macho pode transportar posturas de três fêmeas. Na altura da eclosão os machos dirigem-se a charcos ou ribeiras para os girinos saírem dos ovos.


ACTIVIDADE

São geralmente nocturnos, embora se possam observar indivíduos a cantar durante o dia depois de uma tempestade ou durante o crepúsculo. Têm hábitos escavadores, enterrando-se com frequência. Suportam longos períodos de seca graças à sua elevada capacidade de absorver água através da pele, no entanto, em zonas muito quentes estivam.

CURIOSIDADES

Os machos do género Alytes transportam os ovos às costas e, embora as suas posturas contenham muito menos ovos do que as posturas da maioria dos anfíbios, asseguram a sobrevivência da maior parte dos seus descendentes.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

O canto dos machos pode ouvir-se de forma mais ou menos contínua desde Outubro a Abril, sobretudo ao entardecer e início da noite. Podem observar-se durante a noite em caminhos, estradas ou perto de corpos de água. As observações são mais frequentes após ter chovido ou em dias em que o ar se encontre muito húmido. Os girinos podem observar-se em troços de ribeiros ou em charcos.

sábado, 28 de novembro de 2009

Ficha de espécies: Coruja-do-nabal

A Coruja-do-nabal é uma ave de rapina nocturna, rara no nosso país, pois só aparece entre nós fora da época reprodutora. Pouco se sabe da situação nacional desta espécie, apesar das populações europeias se encontrarem em declínio.


IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

A Coruja-do-nabal (Asio flammeus) está incluída na ordem Strigiformes, família Strigidae. É uma ave de rapina nocturna de tamanho médio, com cerca de 40 cm de comprimento e pesa entre 250 e 400 g. Quando se observa poisada (muita vezes no chão ou sobre um arbusto baixo) é fácil de reconhecer pela sua postura algo horizontal. Tem umas “orelhas” (tufos de penas) muito curtas, quase invisíveis. A plumagem é de tons acastanhados, fortemente malhada, e a face apresenta olhos muito amarelos, rodeados por uma mancha negra, que a tornam inconfundível. Em voo é difícil de distinguir do Bufo-pequeno (Asio otus), mas apresenta tons mais claros, sobretudo no peito e ventre. Entre nós esta coruja é muito silenciosa, e por isso o canto não constitui uma característica útil na sua identificação.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Trata-se de uma espécie bastante rara em Portugal, onde surge no decurso das suas migrações e durante a invernada. Observa-se de norte a sul do território continental, mas é aparentemente mais frequente nas zonas litorais, particularmente junto às grandes zonas húmidas do centro e sul. No Arquipélago da Madeira também parece ocorrer com alguma regularidade.
ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Pouco se sabe sobre a problemática da conservação desta espécie rara em Portugal. Na Europa sofreu um decréscimo acentuado devido à destruição do habitat, e talvez também como resultado da perseguição directa. No nosso país esta ave é abatida com alguma frequência por caçadores que patrulham as zonas húmidas. O seu hábito de permitir uma aproximação considerável aos seus locais de repouso, levantando apenas “à última da hora”, faz com que seja uma presa fácil de caçadores pouco escrupulosos.

HABITAT
Esta coruja mostra uma clara preferência pelos grandes espaços abertos, evitando bosques e zonas humanizadas. É mais abundante nas várzeas e lezírias junto a grandes zonas húmidas litorais, frequentando sapais, salinas, caniçais, terrenos alagadiços, pastagens com valas, arrozais e outros campos agrícolas. Outras áreas de invernada localizam-se nas zonas cerealíferas do Alentejo. Durante as migrações também surge com alguma regularidade em escarpas litorais.
ALIMENTAÇÃO

Em grande parte da sua área de distribuição a Coruja-do-nabal é um especialista em pequenos mamíferos, sobretudo roedores, mas também insectívoros. Em Portugal, num único estudo detalhado da sua alimentação efectuado no Estuário do Sado, verificou-se que, para além dos pequenos roedores, os insectos aquáticos (essencialmente Coleópteros) também são presas muito frequentes.


REPRODUÇÃO
Nas suas áreas de reprodução no norte e centro da Europa, a Coruja-do-nabal nidifica em áreas relativamente abertas, e com um uso do solo pouco intensivo. O ninho é feito no chão, escondido pela vegetação, como por exemplo por entre ervas altas, caniços ou urzes. O número de ovos é bastante variável, sendo função da abundância de presas. As posturas mais frequentes contam com 4 a 8 unidades, mas excepcionalmente podem chegar a 16. A incubação, realizada sobretudo pela fêmea, tem uma duração de 24 a 29 dias. Os juvenis podem abandonar o ninho muito cedo, mesmo antes de aprenderem a voar.
MOVIMENTOS
A migração das Corujas-do-nabal em Portugal inicia-se com a chegada das primeiras aves no final de Setembro. As corujas são mais abundantes de Novembro a Março, e as últimas aves desaparecem em Abril. As aves que surgem entre nós deverão ser originárias da Europa Central e do Norte, como comprova a recaptura em Portugal de um indivíduo desta espécie anilhado na Alemanha.

LOCAIS DE OBSERVAÇÃO

Os estuários do Tejo e Sado e a Ria de Aveiro são provavelmente os locais nacionais mais propícios à observação desta espécie. Orlas de caniçais, sapais e salinas podem revelar-se particularmente favoráveis. Ao contrário do que se passa em grande parte da sua área de distribuição, onde esta coruja apresenta actividade diurna, em Portugal esta espécie é fundamentalmente crepuscular ou nocturna. Os primeiros minutos após o pôr-do-sol são talvez os melhores momentos para a detectar.

CURIOSIDADES

No final do século passado, foi detectado em Portugal e em Espanha um parente próximo da Coruja-do-nabal, a Coruja-moura Asio capensis. Actualmente esta última espécie parece ter desaparecido definitivamente da Península Ibérica.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ficha de Espécies - O Sacarrabos

Provavelmente introduzido na Península Ibérica pelos árabes, o Sacarrabos é um carnívoro diurno de médio porte, comum na metade sul do País. É conhecido pela sua capacidade de capturar cobras e pela sua forma peculiar de deslocação em grupo.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

O Sacarrabos Herpestes ichneumon é um carnívoro de médio porte castanho-acinzentado que, juntamente com a Geneta, representam a família Viverridae no nosso país. Também conhecido por mangusto, manguço ou escalavardo, tem um corpo alongado e de aspecto fusiforme, o focinho é pontiagudo, as patas são curtas e a cauda vai-se afunilando até à sua extremidade onde se encontra um pincel de pelos mais escuros. Tem uma altura no garrote de aproximadamente 20 cm, pesa 2-3 Kg, e tem um comprimento total de cerca de 90 cm, podendo a cauda chegar aos 50 cm. Na cabeça distinguem-se umas orelhas pequenas e arredondadas e uns olhos côr de âmbar que têm a particularidade de exibir uma pupila horizontal, caso quase único entre mamíferos e que revela hábitos diurnos. Não existe um dimorfismo sexual evidente entre machos e fêmeas embora os primeiros sejam um pouco maiores.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Esta espécie, que se pensa que tenha sido introduzida na Península Ibérica pelos árabes, tem origem etiópica e está presente na maior parte do continente africano e na Ásia Menor. Foi também recentemente introduzida numa ilha jugoslava. Na Península Ibérica está distribuida principalmente a SW. No nosso país é relativamente abundante no sul e o a norte já chega pelo menos à Serra da Estrela. Depois de um período em que deve ter sofrido uma regressão na primeira metade do século XX (a 'campanha do trigo' que devastou muito matagal mediterrânico), a espécie parece estar agora em alguma expansão provavelmente devido a 3 factores: o abandono de terras agrícolas e o ressurgimento de alguns matagais; a quase ausência dos seus predadores como o Lince-ibérico; por ter actividade principalmente diurna não compete directamente com outros predadores pelos mesmos recursos.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO
Não ameaçada. É uma espécie cinegética de caça menor que pode ser caçada a salto ou de batida (entre Jan-Fev). Pode ainda ser abatido no controlo de predadores.

HABITAT


É um típico habitante dos matagais mediterrânicos, com subcoberto bastante denso (o seu focinho pontiagudo facilita-lhe a deslocação neste tipo de habitat) e, em geral, nas proximidades de linhas de água. Geralmente como toca utiliza luras abandonadas de coelhos que alarga com as fortes garras que possui nos cinco dedos.

ALIMENTAÇÃO
O sacarrabos tem reflexos bastante rápidos o que lhe permite capturar ofídeos (cobras), inclusivé as espécies venenosas. No entanto, as suas principais presas são os pequenos mamíferos, nomeadamente os roedores e, sempre que disponíveis, também os lagomorfos (coelhos e lebres). Por ter hábitos diurnos, os répteis são também uma parte importante do seu espectro alimentar que inclui ainda insectos, anfibios, aves e matéria vegetal com valor energético.

REPRODUÇÃO
A época de acasalamento ocorre na Primavera seguindo-se um período de gestação de 84 dias, nascendo 2-4 crias entre Junho e Agosto. Os machos são poligâmicos podendo fecundar várias fêmeas. As crias ficam com a mãe até ao nascimento da ninhada seguinte, chegando a formar grupos de 7-9 indivíduos.

MOVIMENTOS
As áreas vitais do sacarrabos variam entre 0,5 e 5 Km2. A defesa efectiva dos territórios restringe-se ao espaço em redor dos seus abrigos.
CURIOSIDADES

As crias seguem a mãe em fila-indiana, cada uma com o focinho por baixo da cauda da que a precede, daí o nome sacarrabos (esta maneira peculiar de se deslocarem até levou ao equívoco de lhes chamarem cobra peluda). Também quando caçam em grupo, os sacarrabos apresentam a particularidade de rodearem a presa deixando-lhe poucas hipóteses de escapar.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

O facto de ter hábitos diurnos e de ser relativamente abundante no sul do país torna a sua observação mais fácil que a dos outros carnívoros já apresentados (lince, raposa, geneta). Um passeio ao longo de uma linha de água será sempre uma boa ideia seguindo as indicações das fichas anteriores.